三零三

Buried above ground

Já faz tempo que eu sinto que a minha existência está sendo rasgada e a dor é insuportável; eu só não esperava que, ao invés de ter duas forças puxando de lados distintos, na realidade são inúmeras forças batalhando para ver quem consegue causar a maior destruição. Eu sinto que absolutamente tudo na minha vida está ameaçado, desde as coisas mais simples como a capacidade de sentir um cheiro bom até coisas mais elaboradas como a possibilidade de planejar algo para o futuro. 2020 é um ano que certamente deixará um trauma coletivo, que está sendo extremamente difícil para todo mundo, mas eu sinto que alguns são menos afortunados que os outros. Alguns, em meio à crise, conseguem ver um lado bom, enxergar uma oportunidade, aprende alguma habilidade nova... E há aqueles que são constantemente bombardeados por notícias tão preocupantes que só empurram mais para o fundo do poço. Em outras circunstâncias, eu até pensaria que dava pra dar a volta por cima, que seria possível se reinventar, que a gente vai sobreviver e vai ficar tudo bem. Mas, exatamente neste momento, eu não consigo. Uma das coisas que sempre gostei em mim mesma foi a capacidade de ver a luz no fim do túnel, de sentir na chuva a limpeza, na brisa o prenúncio de coisas boas, nas flores a realidade de que todo ano florescem e todo ano decaem. O mundo dá voltas e eu as acompanhava de uma maneira tão natural, era tudo tão fluído — eu vibrava com o universo. Agora, no entanto, o universo resolveu que as tempestades não cessariam mais, que as flores morreriam todas afogadas e que eu deveria dormir com uma bola de choro entalada na garganta todas as noites. Ele simplesmente resolveu que o caos deveria tirar total proveito de mim, até que toda minha pele, gordura e músculo fosse arrancado de meus ossos, deixando-me desnuda da maneira mais mórbida possível. Não é o fim do mundo, mas certamente é um fim. Eis que chega o apocalipse de tudo o que sou.

Buried Above Ground - Giles Corey