三零三

Chumbo

Não haveria qualquer outra maneira de descrever o peso que sinto em minhas costas ao observar aquele corpo sem vida. Não sei dizer até que ponto aquela morte foi causada por uma enfermidade ou por ações humanas — ou, quem sabe, um pouco dos dois? No exterior do aposento, o Sol brilha. Do lado de dentro, o silêncio hostil rasga meu peito como as garras de um animal. Ou melhor, como nove espadas sendo cravadas simultaneamente em meu corpo. Poderia ser este o cenário de não apenas uma, mas duas mortes?

Ainda que desprovidos de tecido nervoso, eu posso sentir meus ossos sendo perfurados lentamente. Uma brisa suave entra pela janela, lembrando-me que está na hora de partir. Como poderia? Não adianta chamar ninguém para me buscar: eu preciso andar com as minhas próprias pernas. As mesmas pernas paralisadas pelo peso e pela dor de ter uma pequena parcela de culpa nas circunstâncias atuais.

Ao olhar pela janela, posso acompanhar, no vôo suave dos pássaros, a linha do horizonte sob as copas das árvores, tão cheias de vida no meio da primavera. Eles se escondem durante as chuvas, é claro, mas sempre retornam quando os raios de Sol voltam a aparecer. O problema, como é de se esperar, é quando chove demais e não é possível sair.

Não demora muito para que as primeiras dores apareçam. Nesses momentos, fica óbvio como tudo é finito. Sempre ouvi dizer que a esperança é a última a morrer, mas vejo hoje que ela é, na realidade, a primeira a saudar a morte. E é justamente em meio à desesperança que o perigo habita: não há porque ficar, não há porque sair. As copas das árvores não me fazem diferença alguma. Eu não tenho asas para voar.

Tudo que tenho é um cadáver em decomposição em uma cabana no meio do nada. Sei bem que, no fundo, eu tenho o mundo inteiro a explorar. Sei disso porque, tarde da noite, as estrelas sorriem para mim. Mas a verdade é que a gente passa meses construindo uma cabana para, em poucas semanas, tudo desabar. Basta uma tempestade para que todo o estoque de alimentos seja destruído, e a locomoção seja impedida. É claro que, mais cedo ou mais tarde, não sobra ninguém para contar a história.

E a verdade é que não falta muito para que eu esteja atravessando o véu que separa a vida da morte. Já me conformei com isso, está tudo bem. Eu sei que posso sair daqui, sei que posso seguir em frente, agora que o Sol brilha lá no alto e eu não mais preciso me abrigar da chuva. O problema é que eu não sei se posso confiar no Sol. Nem tudo que brilha é ouro, diz um velho ditado. E tudo bem, não precisa ser. Mas a exposição solar é cancerígena, e eu não posso me dar ao luxo de passar muito tempo sem abrigo.

De que adianta sair de uma cabana, ainda que habitada pela morte, para construir um novo abrigo? Eu não vejo muito sentido nisso. Talvez eu só precise esperar pela próxima tempestade, torcendo para que seja forte o bastante e derrube as paredes. Quem sabe assim, no fim das contas, eu terei um motivo para migrar.

Do contrário, tudo bem ficar aqui. Com o chumbo e as nove espadas cravadas em meu corpo. Com a desagradável companhia da matéria orgânica em decomposição. Com o silêncio e as estrelas que sempre sussurram no meu ouvido durante a noite e me impedem de dormir. Tudo bem ficar aqui, desde que eu não tenha o trabalho de construir tudo de novo para, no fim, deixar tudo morrer mais uma vez.