三零三

Eu não queria escrever

Às vezes, colocar as coisas em palavras não é difícil porque os sentimentos são intensos demais para a linguagem humana; às vezes, colocar as coisas em palavras é difícil porque, de certa forma, isso as torna mais... reais. E eu não sei muito bem como lidar com a possibilidade de tudo isso ser real. Eu pensei que nunca mais teria que escrever com um nó na garganta, escrever para vomitar as toxinas que estão aqui dentro. Pensei que não precisaria mais fazer uma sangria verbal. Pensei errado.

Quem sabe um dia eu encontro o equilíbrio no meio desses altos e baixos. Não falo de um equilíbrio que nada pode abalar — isso, para mim, é estagnação. Falo daquele equilíbrio que consiste na capacidade de cair e se reerguer, voar e saber pousar. Aquele equilíbrio existente nas águas do mar, que mesmo turbulentas conseguem ficar onde precisam estar. Não se trata de não sentir; trata-se de se deixar sentir, de deixar o choro cair, o grito ecoar e o corpo sangrar para se regenerar. Trata-se de deixar os olhos se acostumarem com a escuridão, tendo a certeza que a luz do dia virá.

Todas as noites eu penso em morrer e todos os dias eu me levanto outra vez. Sempre há esperança e essa é a pior parte. Os baixos são mais profundos que os altos. Uma tempestade se aproxima e eu não sei se vou conseguir encontrar abrigo.